Bem vindo ao portal memória de santos

Realização: Fundação Arquivo e Memória Santos

Patrocinadores

Serviços Públicos

Abastecimento de água


ABASTECIMENTO DE ÁGUA, O LÍQUIDO DA VIDA!

Água, o líquido da vida. Os santistas de hoje são tão privilegiados em relação ao abastecimento, que mal atentam ao fato de que o líquido que jorra de suas torneiras vem de tão longe, das fraldas da Serra do Mar, quilômetros de distância de suas casas. Mas isso nem sempre foi assim.

Quando chegaram ao Brasil, os portugueses notaram o imenso potencial hídrico que as novas terras ofereciam. Viram que água não seria problema por aqui, e realmente nunca foi, do ponto de vista disponibilidade. Porém, por outro lado, era preciso saber usa-la.

Quando Santos ainda se chamava Enguaguaçu, os primeiros habitantes se utilizavam das águas disponíveis nas nascentes dos três principais rios que cortavam a parte nordeste da Ilha de São Vicente: São Jerônimo, São Bento (ou Nossa Senhora do Desterro), e do Carmo (ou Itororó). Junto a esses mesmos rios estabeleceram engenhos, sítios e, mais tarde, curtumes.

No tempo colonial, as residências não dispunham de encanamento. Assim sendo, a água para cozimento era trazida das bicas instaladas nas nascentes ou de poços construídos em suas proximidades. Banhos e lavagem de roupa eram realizados nos próprios rios, geralmente trabalhado por escravas negras. Este costume foi mantido por três séculos na vila santista.

O comprometimento dos rios

Com o avanço populacional e a consequente ocupação dos espaços, os rios que cortavam a Vila de Santos sofreram com o comportamento cotidiano de seus moradores e visitantes. Tinha cada vez mais gente lavando roupa, animais, couro, utensílios e a si mesmos. Os dejetos produzidos nas residências (fezes, urina, restos de alimentos, entre outros) também acabavam tendo como destino o leito dos rios e suas proximidades, o que acabava atingindo os mananciais.

Esse comportamento foi determinante para o surgimento de inúmeras doenças entre os habitantes santistas, principalmente no século XIX, quando o nível de saturação dos rios locais estava no limite.

Assim, restavam as nascentes, que não eram atingidas diretamente pelo modo de vida dos habitantes. Boa parte delas foi canalizada, transformadas em bicas e fontes.

Os primeiros chafarizes

Nem todo mundo vivia perto das nascentes e suas bicas d´água. Assim, muitas pessoas dependiam dos “aguadeiros”, homens (geralmente negros escravos) que pegavam água na fonte e a transportava pela cidade em recipientes diversos, como barris de madeira. Havia também aguadeiros entre pessoas das camadas mais pobres, que aproveitavam a tarefa para faturar algum dinheiro com a vendas de água na porta das casas de pessoas de melhor poder aquisitivo. Os mais pobres da vila tinham que caminhar muito para ir buscar água nas bicas e poços abertos ao público, enfrentando muitas vezes grandes filas, além do pesos dos recipientes transportados por longos trajetos. Ocorriam também, muitas disputas pelo acesso à água.

Para minimizar a situação, a partir do início do século XIX, os santistas começaram a construir chafarizes nos locais de maior movimento. Essas estruturas recebiam água canalizada dos rios locais, mas não de suas nascentes, o que não extinguiu a importante figura do “aguadeiro”.

Entre os primeiros chafarizes da Vila de Santos estão os que ficavam no Porto do Bispo, nas proximidades da Igreja e Convento de Santo Antônio do Valongo e o do Forte da Vila (Nossa Senhora do Monte Serrat), local onde hoje está o atracadouro de barcas para Vicente de Carvalho, atrás da Alfândega.

No entanto, cabe uma menção especial ao Chafariz da Coroação, que foi inaugurado com pompa e circunstância no dia 18 de setembro de 1846, diante da presença de ninguém menos do que o próprio Imperador D. Pedro II. Há uma história curiosa acerca da inauguração da fonte. Ao invés de jorrar água, o chafariz derramou vinho tinto por suas torneiras, assustando a todos. Refeitos da surpresa, os santistas confessaram que o fato era uma brincadeira em homenagem ao monarca. Um cidadão português, morador da cidade, havia ligado os canos do Chafariz da Coroação a um barril de vinho do Porto.

O Socorro que veio da Serra

Em 1870, estava mais do que constatado o esgotamento da capacidade dos mananciais santistas em suprir, com qualidade e quantidade, as necessidade de água potável para a população.

Houve uma tentativa, por breve período, de levar água da Cachoeira do José Menino até a população santista das áreas urbanas de maior densidade, através de encanamento que atravessava a atual Avenida Floriano Peixoto (chamada na época de Rua do Encanamento) e percorria o antigo Caminho da Barra (atual Avenida Conselheiro Nébias). Mas a água chegava fraca, em pequena quantidade, não conseguindo suprir as necessidades da demanda da época.

Além da escassez de água de qualidade, a cidade começou a sofrer, a partir de 1850 com inúmeras doenças, muitas delas ligadas às péssimas condições dos rios locais. Para piorar, ratos e mosquitos se aproveitavam destes esgotos à céu aberto para multiplicarem seus potenciais de proliferação. Assim, Santos mergulhou num processo sistêmico de epidemias, que vitimaram milhares de pessoas por todo o fim do século XIX e início do XX.

Preocupados com a situação da falta de água confiável para consumo, as autoridades santistas resolveram celebrar contrato com um grupo de engenheiros ingleses, experientes no sistema de captação, tratamento e distribuição de água, para que, numa obra de grande tamanho e ousadia, trouxessem os recursos hídricos dos mananciais intocados da Serra do Mar.

Assim, em 29 de janeiro de 1870, Santos assinou contrato com a Companhia Melhoramentos de Santos, comandada pelos engenheiros Thomaz Cochrane, Edward Ewerett Benest e o tenente-coronel João Frederico Russel, para não só prover a cidade da pura água da Serra, mas também de iluminação pública à gás.

Os chafarizes se tornam fontes

O serviço de abastecimento de água foi inaugurado em 15 de julho de 1872, em virtude de contrato celebrado com a Municipalidade em 29 de janeiro de 1870. Entre as obrigações da Companhia de Melhoramentos de Santos, além da construção da estação de captação e tratamento de água no Rio Pilões, em Cubatão, e dos 40 quilômetros de adutoras entre a Serra do Mar e a cidade portuária, havia uma cláusula específica que exigia a construção de chafarizes nos principais pontos de Santos. Essas fontes de água pura deveriam receber 12 mil litros, em média, cada uma, todos os dias.

A disponibilidade de água nos chafarizes público fez com que grande parte da população privilegiasse esse acesso ao invés de insistir nas antigas fontes - como as nascentes nas encostas dos morros que estavam habitados e poços próximos às fossas - que já não tinham tanta qualidade e estavam mais sujeitas a contaminações.

A City entra em cena

Em 1876, Santos era a terceira cidade da Província de São Paulo. Apesar do crescimento populacional, tinha infraestrutura bastante limitada, com poucas ruas calçadas, alguns chafarizes, uma linha de bonde e não contava com sistema de esgoto. Essa limitação obrigava grande parte dos santistas a manterem fossas nos quintais ou guardarem em vasos os dejetos que depois seriam jogados na praia ou nos ribeiros. As condições favoreciam a proliferação de doenças.

A água chegava encanada a poucos beneficiados. A grande maioria da população mantinha o sistema antigo, armazenando vasilhas cheias nas casas.

Apesar das melhorias serem poucas, elas eram consideradas importantes pelos habitantes que tinham pelo menos água de boa qualidade e em quantidade suficiente nos chafarizes. Esse foi um avanço obtido com a entrada da empresa no sistema de distribuição, com a captação na serra.

O serviço mudou de mãos em 1881, quando a britânica The City of Santos Improvements Company (Cia. City) assumiu os trabalhos efetuados nesse setor, com chancela real. A empresa foi autorizada a operar na cidade pelo decreto imperial 8.807 de 7 de maio daquele ano.

Conta gotas

A situação de abundância se manteve até 1884, quando a água começou a diminuir nos chafarizes. A escassez foi tanta que a população se viu voltando no tempo, tendo que recorrer às velhas fontes.

Se antes já era difícil ter que percorrer longas distâncias para pegar um tanto de água, imagine depois de provar muitos litros, bem refrescante, de qualidade e muito mais perto de casa. Não tinha como não reclamar. E o povo reclamava das distâncias, da água suja, das longas filas esperando para encher as vasilhas. E, depois da irritação de esperar embaixo de sol quente ou chuva, ainda havia o caminho de volta, com o cansaço acumulado e carregando o recipiente cheio...

Nem os ricos foram poupados da escassez: até nas torneiras o líquido passou a faltar. E os mais afortunados, que pagavam alto, pelo câmbio inglês, para ter água literalmente à mão, tiveram que recorrer a outras alternativas se não quisessem esperar um quarto de hora para beber um copinho.

Tempos difíceis

A City investiu na captação dos córregos mais limpos no Rio Pilões. A água “viajava” 17.200 metros da serra de Cubatão para abastecer a cidade. A mudança não teve efeito imediato e a situação foi se complicando, até que em 1889 a água era escassa e o uso de poços tornava-se cada vez mais comum, colocando novamente em risco a saúde do povo, pela proximidade com as fossas.

O cenário foi um prato cheio para a epidemia de febre amarela que tomou conta da região. Nesse ano, a City abastecia os chafarizes e atendia com água encanada 1.191 casas particulares – das cerca de 2 mil que existiam na cidade. A escassez da água levou a racionamento e, em 1891, a população obtinha o líquido, que tanta falta fazia nos chafarizes públicos.

Faltava água para beber, para banhar-se e para a higiene, o que agravava as condições sanitárias. Os locais que mais causavam preocupação nas autoridades eram as lavanderias públicas, com tinas espalhadas e pouca água para lavar toda a roupa recebida. A situação crítica perdurou por anos, agravando as epidemias, especialmente a de febre amarela, que castigava a região nessa época.

Quem entrava em uma casa santista em 1897 encontrava espalhadas em todo lugar vasilhas com água para o uso das famílias – mas já não havia suficiente nem para o elementar necessário. Nas caixas de água, bombas eram colocadas para tentar aumentar a quantidade disponível, mas raramente se conseguia isso depois das 10 horas.

Tentando reverter essa situação, o governo fez alterações no contrato de abastecimento com a City. Uma das exigências era garantir 1.500 litros diários para cada prédio – mas isso só aconteceu de fato dois anos depois. Até lá, continuou faltando água. Banho, só a seco mesmo.

Por isso, mesmo sabendo o risco que as tinas e vasilhas ofereciam para a proliferação de doenças, o governo permitia que o povo as usasse, mantendo nos pátios e quintais. Com a melhora no fornecimento, já em 1901, os tanques foram substituindo esses recipientes que ofereciam riscos à saúde pública porque eram focos de mosquitos. A água encanada garantia tanto conforto para a população que em 1907 virou comum instalar banheiras nas residências. Para quem até alguns anos antes dependia de percorrer enormes distâncias para tomar a parte que lhe cabia, mal dando para matar a sede, banheira era mesmo um luxo sem igual.

Chegando ao final da primeira década do século XX, Santos já somava 75 mil habitantes. E a cidade continuou se desenvolvendo até atingir 100 mil habitantes em 1919. O abastecimento de água seguiu acompanhando o ritmo.

Certa hora não bastava apenas pegar a água nos rios e fazer chegar nas casas. O povo precisava que a empresa fornecesse o que se chamou água potável. E a Cia. City instalou um sistema de purificação. Esse serviço foi se aprimorando até chegar ao que temos hoje, com água clorada e tratada por processo químico. Em 1953, a Cia. City foi substituída pelo Serviço de Abastecimento de Água de Santos e Cubatão (SASC), criado pelo Governo do Estado.

Para ampliar o atendimento da população que não parava de crescer, teve início em 1960 a construção da Estação de Tratamento de Água de Cubatão, que atende boa parte da Baixada Santista. O tratamento nesse local começou em 1963.

Em 1969 os serviços passaram para as mãos da Cia. de Saneamento Básico da Baixada Santista (SBS), que encampou também o serviço de coleta e tratamento de esgoto da cidade. Em 29 de junho de 1973, o Governo de São Paulo criava a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), que assumiria de vez toda o ciclo do saneamento, desde a captação e tratamento da água, até a coleta e tratamento do esgoto.

Longa viagem

Atualmente, a água que chega às nossas casas vem dos rios Cubatão e Pilões e da usina Henry Borden, através da Represa Billings. Reservatórios garantem o abastecimento.

Ao longo dos anos, os métodos de tratamento foram mudando, se aperfeiçoando para que a água chegue cada vez melhor.  Mas a principal mudança nesse tempo foi mesmo a forma de ter acesso a água. Antes era preciso atravessar grandes distâncias sob chuva ou sol, para saciar um pouco da sede. Agora, a água percorre quilômetros nas tubulações até escorrer em nossa torneira. Já que o homem cansou de ir até a água, a água vem até o homem. Houve mudança evidente também na quantidade oferecida, que precisou ser aumentada, ao longo dos anos, com reformas no sistema e ampliações para seguir o ritmo da cidade que não parou de crescer.

O Túnel Reservatório

Pouco antes da passagem dos serviços para a Sabesp, ainda na década de 1970, a Companhia de Saneamento da Baixada Santista (SBS) iniciou estudos no sentido de encontrar espaços viáveis na malha urbana para a construção de um reservatório de alta capacidade. Pela disposição de uma cadeia montanhosa no centro da área insular (ilha de São Vicente), próxima aos maiores centros de consumo e faixas turísticas, a preferência era, inicialmente, instalar o equipamento no alto dos morros. Além das vantagens de proximidade, eram também locais livres da especulação imobiliária e adequados do ponto de vista técnico, por oferecer condições para a construção de uma rede de distribuição por gravidade. No entanto, havia pouca disponibilidade de terrenos que não estivessem em áreas instáveis (risco de deslizamentos). De tanto avaliar alternativas, os engenheiros da SBS resolveram propor uma solução pouco convencional, mas que se mostraria absolutamente bem-sucedida: construir o novo reservatório em um túnel subterrâneo, escavado nas rochas entre os morros Voturuá (São Vicente) e Santa Terezinha (Santos). Um sistema que se relevaria altamente seguro e o que era melhor: invisível.

A partir de 1975, nos primeiros dias de administração já pelas mãos da Sabesp, o projeto foi reavaliado com maior atenção até que recebeu sinal verde para ser tocado em frente. A solução do túnel-reservatório era inédita no país.

As obras

Iniciadas em 1979, as obras de construção do reservatório-túnel consumiram dois anos de trabalhos nas entranhas do maciço rochoso divisor da ilha de São Vicente. O trabalho era realizado, em boa parte, à base de dinamite, não havendo economia no ataque às rochas graníticas sólidas. Nada menos do que 420 quilos do explosivo eram gastos todos os dias para detonar a montanha que, de tão dura, não precisou ser escorada em praticamente nenhuma etapa. A obra foi concluída em março de 1981.

O túnel-reservatório Santa Tereza-Voturuá foi projetado com o objetivo de suprir as necessidades de Santos e São Vicente até o ano 2000.  Sua capacidade é de 110 milhões de litros de água. O cálculo havia sido feito com base na escala demográfica dos últimos 50 anos. Enquanto a cidade portuária contabilizou 140 mil habitantes no censo de 1930, em 1980 esse número chegava a pouco mais de 410 mil, o que significou a triplicação da população.  Do lado vicentino, o salto foi muito maior, partindo de 18 mil habitantes em 1940 para 193 mil em 1980, ou seja, dez vezes mais!

Com isso, o túnel da Sabesp, que iniciou suas operações em 16 de novembro de 1981, ainda não precisou ser socorrido por novos meios de reservação e continua absoluto na ilha de São Vicente, ainda como o maior da América Latina, onde água, ainda bem, não é o problema!


Comentários

Voltar ao topo

Deixe seu comentário