Bem vindo ao portal memória de santos

Realização: Fundação Arquivo e Memória Santos

Patrocinadores

Documentos

Carta, Acervo, Jornal, A Tribuna, Vicente de Carvalho


CARTA DE VICENTE DE CARVALHO AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA EPITÁCIO PESSOA

Pesquisa e texto: Sergio Willians e SDRV

Vicente Augusto de Carvalho foi um advogado, jornalista, poeta que, até hoje, é considerado um dos mais ilustres filhos desta terra. Nascido em Santos no ano de 1866, era reconhecido por sua excepcional capacidade oratória, letras finas e conduta reta, inteiramente coerente com seus princípios e valores.  Vicente de Carvalho foi um aguerrido abolicionista e republicano. Chegou a ingressar na carreira política, elegendo-se deputado estadual em 1891 e, no ano seguinte, ocupar o cargo de secretario de interior no governo paulista de José Alves de Cerqueira César. Porém, logo cansou-se da burocracia e dos meandros do universo político e decidiu direcionar sua vida ao jornalismo, à agricultura (até 1901) e aos seus poemas, que o elevaram ao patamar de um dos mais importantes escritores do país. Das dezenas de obras literárias que produziu, a que especialmente marcou sua carreira, Poemas e Canções, foi lançada um ano antes de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 29, no lugar do maranhense Artur Azevedo, no dia 1º de maio de 1909. Vicente de Carvalho foi casado com Ermelinda Ferreira de Mesquita, a Biloca, com quem teve quinze filhos.

De todos os seus feitos, que não foram poucos, o que mais impactou os santistas foi sua luta pela preservação da faixa de orla praiana, alvo da especulação imobiliária no início da década de 1920. Na época, grandes palacetes começavam a modificar a paisagem local, a maioria construída a mando de influentes comerciantes de café. Os carros também já tomavam conta das velhas ruas e avenidas de areia batida dos bairros da praia e, assim, o ambiente se transformava. Atraídos pelo potencial econômico, um grupo de empresários iniciou uma forte articulação política para “tomar” a faixa de areia, com planos até de tornar a praia “particular”. Tal movimento alertou parte considerável da sociedade santista, em especial Vicente de Carvalho, figura de peso na imprensa paulista e ardoroso defensor de sua terra natal.

Assim, em 21 de agosto de 1921, o ilustre santista resolveu escrever uma carta aberta dirigida ao presidente da República, Epitácio Pessoa, que estava de passagem pela cidade, solicitando a transferência dos terrenos da orla (onde estão hoje os jardins), pertencentes à União, para o município, para que este pudesse promover um projeto urbanístico que salvaguardasse a orla marítima, onde já existiam trechos “ajardinados”, como descreveu em sua mensagem. Vicente de Carvalho foi enfático, duro em alguns momentos, prevendo que, caso os empresários tivessem êxito em sua empreitada:

o interesse particular, e é ele que se empenha nessa obra sacrílega de destruição abre lentamente, como micróbio ativo e tenaz, caminhos subterrâneos por onde se infiltra mesmo em organismos resistentes. Paira sobre Santos a ameaça de ser privada da melhor das belezas de sua terra, da linda praia da Barra, joia doada pela natureza, e que a nossa cidade vem, de geração em geração, gozando largamente e conservando com carinho”.

A carta surtiu o efeito desejado e o presidente Epitácio Pessoa providenciou, cinco meses depois, em 20 de janeiro de 1922, a concessão, enviado pelo ministro da Fazenda, ao coronel Joaquim Montenegro, prefeito da cidade na época, de aforamento gratuito da Praia da Barra à Câmara Municipal de Santos. O documento indicava que “não serão permitidas edificações no local, nem transpassa-lo ou subafora-lo”. Com a determinação, a praia estava salva e os jardins logo surgiriam, para o orgulho dos santistas, que devem a Vicente de Carvalho esta vitória pela preservação da orla santista. 

 

CARTA ABERTA                          Viver às claras Cidadão Diretor do Estado de São Paulo.  

            Aceitando há alguns meses o amável convite que me foi feito, comprometi-me a colaborar efetivamente no vosso jornal e do mesmo começo a tarefa publicando vários escritos que saíram a lume sob o pseudônimo de João d'Amaia.            Ausente temporariamente deste Estado, interrompi aquela colaboração; e hoje, de volta, sou forçado a dar por terminado o compromisso que convosco assumira, pelos motivos que passo a expor, a que me obrigam a encerrar definitivamente a minha vida de jornalista.            Esclarecido pela Doutrina Positivista, compreendi finalmente o papel que representa na evolução social o jornalismo, como um dos mais influentes fatores que é a anarquia mental reinante – quando mais não fosse, por favorecer o assalto dos incompetentes à atenção do público. E compreendi também o papel importuno que eu pessoalmente representava como literato.          Nenhum ressentimento, ou qualquer outra paixão egoística influi na opinião que manifesto a respeito do jornalismo, e no meu consequente afastamento dele; pois, pessoalmente, o saldo da minha conta com o jornalismo é representado pelos melhores desvanecimentos que experimentei em dez anos de vida pública, hoje de todo extinta, e pela gentileza e benevolência com que me distinguiram sempre os jornais paulistas, o vosso mais do que qualquer outro.         Quebrando agora os últimos laços que me prendiam a essa instituição, sou exclusivamente induzido por um simples sentimento de dedicação social, sentimento esclarecido pela serena convicção de que assim procedendo, deixo de ser nocivo.          Deixando a profissão de escritor subtraio meu concurso pessoal à massa enorme de banalidade que perturba e dificulta a orientação do gênero humano; e diminuo de um que é tudo quanto posso, o número considerável dos agitadores estéreis e desorientadores da opinião, que desvirtuam em todo o mundo superior destino social da imprensa.          O meu ato não visa o mínimo intuito de propaganda doutrinária; e praticando-o, cumpro apena o dever elementar de contribuir para o aperfeiçoamento coletivo pela regeneração individual. Nem a publicidade que procuro para esta declaração, implica contradição com essa ausência de intenção de propaganda, porque exprime apenas o desejo de penitenciar-me perante o público, a quem, durante dez anos, fiz todo o mal de que fui capaz por meio do jornalismo, contribuindo na medida das minhas forças, felizmente escassas, para a sua anarquização intelectual e moral.           Despedindo-me da vossa folha, e do jornalismo paulista em geral, só me resta agradecer-lhes as atenções que sempre me dispensaram, e que ou retribuo pela estima e consideração que voto às pessoas de muitos de seus membros.  

Vosso amigo afetuoso
Vicente de Carvalho.
Nascido em Santos, a 5 de abril de 1.866.

Santos, 15 de junho de 1.895.

 
Fontes:
Memória Santista - site do jornalista e escritor Sergio Willians - Acesso em 04/04/2016
Carta publicada orginalmente em 18 de junho de 1895 no jornal O Estado de S. Paulo, de propriedade de José Filinto da Silva & Comp. - Acervo do jornal O Estado de S. Paulo
Pesquisa: Sergio Willians e SDRV
Grafia atualizada nesta transcrição por SDRV
Última atualização: 08/08/2017 - SDRV

 

 

 

 


Comentários

Voltar ao topo

Deixe seu comentário